CANYON > A NOVA FACE DO PROGRESSIVO

Lucio Oliveira
A Canyon é uma banda de Rock Progressivo influenciada por grandes nomes do estilo dos anos 60, 70 e 80 e também pelo Krautrock, Psicodelia, Hard, Jazz, Space Rock e derivados do periodo. Sua música surpreende por fugir do lance comum, pelo ótimo bom gosto, pela inspiração das composições e pela coragem de reacender as brasas tocando um estilo como esse no Brasil, mais precisamente no Maranhão. O som é totalmente calcado nos anos 70, tendo como influências bandas como: Genesis (fase Peter Gabriel), Rush, Camel, Tangerine Dream, Eloy, Yes, Grobschnitt, Alphataurus, Semiramis, O Terço, Greenslade, Osanna, e também o Rock Psicodélico e o Hard setentista. 

Recentemente a banda lançou seu mais novo EP, que conta com 4 faixas que podem ser ouvidas online, disponíveis para áudio no Soundcloud. Confira o bate papo com Ramon Silva, no qual ele fala sobre o início das atividades, lançamento do EP, suas influências e planos futuros.

Como surgiu a ideia de criar uma banda de rock progressivo?

A minha primeira banda, Insomnia foi criada com o objetivo de ser uma banda de progressivo. Isso em 1998, mas esse projeto não foi pra frente pois só eu pensava dessa forma e o resto da banda queria fazer um som mais pesado, mesmo assim ainda inseri uns covers como Pseudo Silk Kimono, Kayleigh e Lavender do Marillion e Confortable Numb do Pink Floyd, mas percebia que o público não gostava muito desse som mais lento. Enfim, o Insomnia acabou e muito tempo depois em 2008, Jobson, Leonel e eu nos reencontramos e como tínhamos muita vontade de tocar juntos decidimos formar uma banda, que primeiro se chamou Solarisphere, depois Red e finalmente Canyon, mas quem deu o direcionamento pra tocarmos Rock Progressivo dessa vez foi o baixista, Leonel que nessa época estava ouvindo muito Progressivo de bandas obscuras como Corte Dei Miracoli, Alphataurus, Le Orme, Osanna, Gilgamesh, Módulo 1000 entre outras, e como eu já tinha essa vontade também foi imediata a receptividade da idéia.

Quando foi a primeira vez que você ouviu o termo “Progressivo” relacionado à música?

A primeira vez que eu vi algo relacionado ao termo  Rock Progressivo por incrível que pareça foi quando um amigo meu falou em 1991 que os Engenheiros do Hawaii tocavam Rock Progressivo!!!! Eu achei o termo interessante, mas confesso que nesse tempo eu não dava muita importância pra esse som mais leve. Eu era um fã de Slayer e Iron Maiden. Eu estudava com uma amiga que tinha todos os discos do Floyd em vinil e ela me emprestava tentando me convencer a gostar mas eu nem ligava... Eu era muito jovem e até radical nessa época. Por incrível que pareça o Progressivo foi um dos últimos estilos que realmente eu me tornei fã.

Estive conferindo o EP e confesso ter ficado impressionado. De que forma as pessoas tem recebido esse trabalho, seja pelo material gravado ou nas apresentações que a banda tem feito?

Obrigado. A recepção do EP tem sido excelente, pra um primeiro passo eu acho maravilhoso, já na parte musical, as composições tem sido muito elogiadas. O fator mais criticado ainda tem sido a produção do trabalho, já que foi feito com poucos recursos e não foi em um estúdio profissional, portanto apresenta falhas no mix e na masterização. Até conseguimos melhorar o som depois pois a demo foi remasterizada pelo Antonio Celso Barbieri em seu estúdio Raw Vibe, em Londres.(E essa foi uma grande ajuda e uma honra já que o Celso é uma figura importantíssima pra a cena brasileira, produzindo o Patrulha, foi o primeiro a colocar o Viper pra tocar, gravou o Ao Vivo do Korzus, e fez muito mais coisas, o espaço seria pequeno pra descrevê-las) Mas isso é um processo natural e também é resultado das nossas experiências em estúdio, já que decidimos nos auto produzir então é normal aparecerem erros, mas afirmo aqui sem medo que não me arrependo, nem faria diferente, pois se fôssemos depender de captar dinheiro pra entrar em um estúdio profissional, até hoje não teríamos lançado nada, pois eu acho que os custos são altos. Também tem o lado que eu defendo: Se dá pra fazer, por que não tentar? Eu me lembro das produções em demos que eu ouvia há anos atrás, e vejo que ali apesar das condições precárias dava pra captar a essência da banda, e é o que acho que o nosso EP transmite, apesar das falhas, percebe-se que ali tem uma banda se esforçando pra dar o seu melhor.

Quais foram os temas e inspirações para o desenvolvimento do EP?

Fight Them, que é a música de abertura foi a última a ser escrita e ela surgiu depois de uma experiência desagradável em um show, eu escrevi a letra inspirada nesse episódio, não é uma narrativa mas sim uma expressão do nosso modo de encarar o nosso trabalho sem abaixar a cabeça pra ninguém, com humildade, perseverança e pés no chão. Musicalmente ela tem uma pegada meio Thin Lizzy no riff, mas se desenvolve de forma natural, passando pelos synths a lá Birth Control.

Nightbird é sobre uma vampira. Ela seduz os tolos apenas pra sugar sua energia vital, mas esse tema pode ser encarado com um fundo de realidade, substituindo a figura da vampira pela de qualquer pessoa que usa os outros apenas para lhes roubar o que tem de mais precioso. Sinceramente não acho similaridades com nenhuma banda nessa música, acho que conseguimos sintetizar o que é o Canyon nesse som.

Sleeping Lady é uma história sobre uma garota que vive dormindo pelo simples fato de que apenas em seus sonhos ela é verdadeiramente feliz, acho essa música meio melancólica e a escrevi em um momento muito difícil da minha vida. Ele tem uma vibração meio Floyd, Moody Blues, misturado com Genesis e Camel.

Questions no Answers é o nosso pequeno clássico. Foi a primeira música que trabalhamos e foi composta por Jobson de uma tacada só, num belo momento de inspiração. Tem um pouco de Yes, Greenslade e Rush nesse som que é  a que eu mais gosto de tocar. A letra aborda aquelas questões que vez por outra todos se pegam fazendo: Se existe vida após a morte, vida em outros planetas, e coisas do tipo.

A arte da capa do EP está uma maravilha. o que você pode falar sobre ela?

A capa foi desenhada por mim e foi resultado de uma busca por uma imagem que simbolizasse a banda e que fizesse com que quem a visse usasse sua imaginação pra interpretar o que estava representado ali. Quem olha a paisagem pela primeira vez geralmente só enxerga a paisagem, mas quando para pra observar é que percebe que há mais ali, e deixo que o ouvinte tenha sua visão individualizada. É melhor do que explicá-la.

Ao seu ver, falta mais espaço para o estilo dentro da mídia não especializada e de mais setores da música?

Dentro da mídia não especializada não existe espaço pra mais nada além do que é fruto do marketing. O Rock Progressivo é visto como um estilo antiquado e afetado. Esse estilo de música hoje não encontra apoio em outro lugar a não ser dentro da mídia especializada. É a imutável realidade.

No início da década de 70, o som progressivo era a vertente mais popular do rock. Bandas como Yes, Genesis e Emerson Lake & Palmer lotavam estádios. Depois o estilo sofreu com a era disco, new wave, pop e punk rock, o que fez com que bandas como Marillion, Genesis e Yes mudassem seu som, se reinventando e fugindo dos elementos progressivos e das comparações. Você acha que é possível fazer Progressivo acessível novamente?

Acho que  hoje a realidade do mundo não permite mais que exista tempo pra alguém parar pra ouvir uma música de 21 minutos. As pessoas hoje em sua maioria não se interessam por músicas mais sofisticadas, a não ser os que já são apreciadores do estilo. Então falando serenamente, na minha opinião não existe possibilidade do Rock Progressivo chegar nem perto da posição que ocupava no passado. Comercialmente falando, claro.

Hoje em dia, bandas como Dream Theater e Symphony X deram uma roupagem contemporânea e pesada para o progressivo, chegando a influenciar uma nova geração de bandas, surgindo assim o prog metal. Você acha que o prog metal tornou-se tão ou mais popular que o rock progressivo clássico?

Eu tenho um distúrbio que me impede de gostar de Prog Metal! Eu explico: Eu acho que o Prog Metal pegou as piores características do progressivo pra agregar ao seu som, e com um agravante: Não conseguem escrever músicas cativantes, pelo menos pra mim, não agrada. São formadas por grandes músicos que nem sabem o que fazer com tanta técnica. Eu sei que existem muitos fãs de Dream Theater, mas não consigo gostar desse tipo de som. Apesar de já ter tentado muito. 

Das bandas progressivas atuais quais você destaca e porque? 

Ouço pouca coisa nova, tenho que admitir, mas destaco Anglagaard, Landberk, Anedokten e Blue Mammoth, pois tem conseguido fazer um som de qualidade sem se preocupar em copiar os gigantes do estilo. Isso já é um mérito. Existem muitas bandas que vivem de copiar o Yes e o Genesis até nos timbres. Acho isso péssimo.

Das influências citadas pela Canyon temos: Rush, Yes, Genesis, Camel, Eloy, entre outras. De que forma essas bandas servem de inspiração para as composições da banda? 

A maior lição que tiramos das bandas Prog é que a criatividade não tem limites. Se citarmos cem bandas de progressivo provavelmente teremos 100 bandas com a sonoridade totalmente diferente uma da outra. Pegue por exemplo o Genesis, ELP, King Crimson e Van Der Graaf Generator, todas são Prog mas não diferentes entre si. Das bandas que você citou posso dizer que o Rush nos mostrou como fazer progressivo só com guitarra, baixo e bateria, o Yes a harmonizar vozes como ninguém e pelo trabalho de guitarra fabuloso de Steve Howe, o Genesis pra mim, pela bateria incrível de Phil Collins, o Camel a simplicidade e beleza da guitarra de Latimer, do Eloy o som épico e majestoso sem perder o peso. Master Of Sensations é uma aula.

Pra você, Qual o álbum conceitual mais louco e a música mais épica?  

Álbum: The Wall - Pink Floyd
Música: 21 Century Schizoid Man- King Crimson

Você poderia fazer uma lista dos 10 melhores discos do rock progressivo de todos os tempos?
    
Impossível fazer isso! Mas aí vão dez que recomendo:
   
King Crimson - In The Court Of Crimson King
Yes - Relayer
Genesis - Nursery Cryme
Nektar - Tab In The Ocean
Emerson,Lake & Palmer - Trilogy
Rush- Hemispheres
O Terço - Criaturas da Noite
Alphataurus- Alphataurus
Eloy- Silent Cries And Mighty Echoes
Camel- Moonmadness

Obrigado pelo tempo cedido. Fica o espaço para suas considerações finais 

Eu gostaria de agradecer o espaço e dizer que estamos produzindo nosso próximo disco, provavelmente será lançado até o fim do ano, com 7 músicas. Em breve estaremos participando da terceira coletânea on line Stoned Union Doomed, compilada pelo blog arrastado e desacelerado do nosso amigo Gustavo. O EP será relançado em parceria com a Infernal Rites Distro, do Patrick e aos poucos vamos mostrando nossa cara no underground.

Um abraço a todos os nossos amigos que nos apoiam indo aos shows, divulgando os sons. Às nossas famílias também e a todos que acreditam em nosso trabalho e gostam do nosso som. Nos vemos em algum lugar por aí.