Black Sabbath 9.10.13 Porto Alegre-RS

João Guarani | Underground MA  .  Fotos: Bruno Alencastro
Mestres Irretocáveis no Primeiro Show da Turnê Brasileira

Perdi o prazo para me credenciar como imprensa pra ver o show. Parecia tudo perdido, os ingressos esgotados, eu sem grana, mas eis que os Deuses do Metal me abençoaram. Um dia antes da apresentação, do nada, surgiu um dinheiro e, em seguida, mais do nada ainda um amigo de um amigo se dispôs a ir até a minha casa vender o único ingresso que possuía.
Ao pegar o ônibus pro show, um frio já subiu à espinha. No caminho, conheci um cara que tinha o mesmo destino, fomos recordando os petardos que cada um havia assistido em Porto Alegre: Iron Maiden, Black Sabbath com o Dio, Alice in Chains, Judas Priest, Ozzy solo, só coisinha sem importância.
Logo, o engarrafamento. Não pensei duas vezes: desci e fui a pé. Logo comprei a camiseta com a frase orgulhosa: "BLACK SABBATH EU FUI!". Não demoro até encontrar por acaso uns amigos da antiga com um Jack Daniel's debaixo do braço e a festa tá iniciada.
Pelas 19h30 conseguimos adentrar o estacionamento da Fiergs, onde a banda gaúcha Hibria está mostrando porque acaba de se destacar no Rock in Rio. Das 30 000 pessoas, muitas chegaram de manhã para pegar um bom lugar, então se torna difícil se aproximar do palco. Logo se houve os gritos "Megadeth, Megadeth!", entoado pelos mais entusiastas do grupo liderado por Dave Mustaine. O show dos estadunidenses abre com a representativa Hangar 18. O telão gigantesco é uma atração à parte, mostrando os músicos ao vivo com efeitos absurdos nas imagens. O guitarrista solo Chris Broderick e o líder capricham no virtuosismo. Belo show de abertura para os reis do rock pesado que, nesse momento, estão prestes a adentrar o palco.

Se ouve uma risada do Ozzy, 64 anos, mas ele ainda não entrou em cena. A galera pira. O mais alto grau de expectativa toma conta da massa de roqueiros. Forço a passagem para chegar um pouco mais perto. Eu e a multidão estamos completamente amassados. Jamais os presentes irão esquecer o primeiro riff de Tony Iommi (cuja avó era brasileira), 65 anos, a primeira dedada no baixo de Geezer Butler, 63, e o momento em que Ozzy Osbourne solta a voz: "General gathered in their masses". A emoção toma conta de corpo, alma e espírito, as lágrimas escorrem, a energia do metal pulsa. A letra forte segue entoada em coro, traduzindo: "Generais reunindo seus seguidores como bruxas numa missa negra (...) Políticos se escondem. Eles apenas iniciam a guerra. Por que eles deveriam sair para lutar? Eles deixam esse papel para os pobres". No final de War Pigs (Porcos de Guerra) a multidão entoa em coro o riff de Tony Iommi, selando a sinergia entre banda e público que iniciou no dia em que cada um da platéia ouviu pela primeira vez Black Sabbath.
As Gibsons SG do velho Tony (ao longo do show ele desfila uma vermelha, uma preta e uma branca) possuem um timbre absurdamente pesado. Seus solos e riffs tem alma, não é à toa que o Sabbath começou em 1968 tocando blues. Não há preocupação com exibicionismo e tal, essas coisas de "guri", como dizemos no Sul. O canhoto Iommi é como o vinho bom, quanto mais velho melhor. Aos 17 anos, teve as pontas dos dedos médio e anular da mão direita arrancadas por uma prensa na fábrica onde trabalhava, em Aston, subúrbio de Birmingham, Inglaterra. "Os ossos ficaram projetados para fora", conta em sua biografia. Foi ouvindo o violonista belga de gipsy jazz Django Reinhardt - virtuose que usava apenas dois dedos - que ele saiu da depressão. Desenganado pelos médicos, que lhe disseram para desistir da música, Tony desenvolveu próteses caseiras e se tornou um dos maiores guitarristas da história, certamente o número um do heavy metal. Usando os dedos bons indicador e mínimo foi o primeiro a usar intensamente para a base somente as cordas graves, em vez do acorde completo, criando o clássico riff pesado - denso, como gosta de chamar. E revela que até hoje os dedos acidentados doem durante o shows.

A segunda música é Into to the Void, do disco Master of Reality. Em seguida, Under the Sun, do volume 4, empolga a platéia e prepara para o clássico absoluto Snowblind, com seu solo magnífico de guitarra, momento em que as lágrimas voltam a correr, ao mesmo tempo que urro faceiro como o "novilho brasileiro" do Boi de Pindaré. Ozzy, o vocalista mais insano já visto, está concentrado acima de tudo na música nesta noite, deixando as loucuras um pouco de lado. Em 2012, em show de sua carreira solo também em PoA, era diferente: se enrolou em uma bandeira do meu Grêmio, jogava baldes de água em sua própria cabeça e na platéia. Ozzy ama tanto o Brasil que acabara de vestir uma bandeira brasileira para 40 000 argentinos. Talvez em razão dessa gafe recente estivesse mais "tranquilo". Sua voz está absolutamente sinistra, na combinação perfeita com a guitarra de Tony que enlouqueceu milhões de adolescentes do mundo inteiro, inclusive este que vos escreve.
O show segue com Age of Reason, do mais recente álbum 13. Momento da platéia respirar e prestar atenção na nova composição. O hino Black Sabbath é executado com vigor pleno pelo quarteto, no final dele - quando há uma acelerada - parte do público pula enlouquecido e o show pega de fogo de verdade. Seguem petardos do disco de estreia, de 1970 (gravado e mixado em inacreditáveis dois dias): Behind the Wall of Sleep e N.I.B, momento em que é apresentado Mr. Geezer Butler, que faz o estupendo solo de baixo com efeito wah-wah que abre a faixa. Butler é o único da formação original que estudou música na adolescência. A partir desse solo, Butler se empolga, o baixo fica mais audível, de vez em quando dá pra escutar aquele gostoso estouro da corda no traste de uma dedada mais forte.
O detalhe é que o show estava apenas na metade. End of the Beginning é executada antes da maravilhosa Fairies Wear Boots. Logo vem a surpresa: a instrumental Rat Salad, que não estava no set list divulgado, me leva à loucura. Grudada nela vem o solo de bateria de Tommy Clufetos, 33 anos, incumbido da difícil missão de substituir o genial Bill Ward, da formação original. Mostrando habilidade, Tommy levantou o público, esmurrando a batéra do início ao fim. A equalização, focada nos timbres graves, conferiu poder à sua exibição. A única atitude duvidosa, talvez juvenil, de Tommy era quando a banda toda estava tocando, as câmeras mostravam no telão um a um, na sua vez por vezes fazia caras, bocas e olhares, o que não combinava com os maduros da formação original que olhavam para o público diretamente, não para a câmera. De qualquer forma, o vigor da juventude de Clufetos caiu bem na banda dos reis.

Alguém do meu lado grita: "IRON MAN!". E era verdadeiramente o momento em que a efusividade estava para chegar ao topo. Iommi faz a introdução, Ozzy mete bronca com efeito no vocal. Logo uma roda punk estoura a meu lado e me jogo nela, aproveitando para chegar mais a frente e finalmente enxergar melhor fora do telão os mestres. Na roda, vejo adolescentes endoidecendo e me lembro do meu segundo grau, aprendendo o riff dessa música num violão ralado, com as cordas mais raladas ainda. Momentos intensos em que a vida vale profundamente à pena. Existiria Iron Maiden, Metallica, Motorhead sem Sabbath? A resposta é que essas bandas, se existissem, o que é bem difícil, teriam outras sonoridades que não as que as tornaram referências.
Mas calma aí que ainda teve tempo pra nova e desconcertante God is Dead? (Deus está morto?). "Você acredita em alguma palavra que a bíblia diz? Ou é tudo um conto de fadas sagrado e Deus está morto?". A trabalhada Dirty Women, do álbum Technical Ecstasy, também tem vez. A roda punk volta depois, não podia ser por menos, guitarra e baixo cavalgando em Children of the Grave é muita energia. A letra, lançada em 1971, é extremamente atual: "Revolução em suas mentes, as crianças começam a marchar contra o mundo em que têm de viver. Oh, o ódio está nos seus corações. Cansadas de serem empurradas e apenas ouvir e obedecer, elas enfrentarão o mundo, até que vençam, e o Amor venha a fluir".
A plateia havia delirado, tudo estava perfeito, quando Tony puxa Sabbath Blody Sabbath. Ozzy olha desconcertado pra o guitarrista, que abre um sorriso. Era brincadeira, em seguida ele puxa talvez um de seu riffs mais conhecidos da música que dá nome ao disco que deu fama ao Black Sabbath, o segundo: já adivinhou né? PARANOID! Todos, banda e público, dão seu último gás pra estupenda apresentação terminar em polvorosa. Após duas horas em que a palavra show fica humilde pra definir, Ozzy ressalta o fato de Porto Alegre ser a primeira cidade da turnê brasileira: "Number one", diz, com o dedo indicador apontado pra cima.